O que faz um bom neurolingüista?

 Steve Andreas*

 Há algum tempo atrás, alguém me fez uma pergunta muito interessante, sobre a qual eu tenho pensado muito, desde então: "Qual é a diferença entre alguém que usa a PNL num grau médio de habilidade e alguém que a usa num grau elevado?" Acho que existem muitas repostas a essa pergunta, e tenho algumas idéias para tentar respondê-la.

Acho que alguém que usa os métodos da PNL excepcionalmente bem tem muitas maneiras de agregar todas as habilidades e técnicas dentro de uma simples estrutura abrangente de compreensão. Uma estrutura universal fornece base sólida para coletar informações e responder criativamente, mesmo quando um determinado método ou técnica não funcionar, e outros se tornarem ineficazes ou confusos.

Dividindo e Unindo

 Tem-me sido muito útil pensar naquilo que faço em termos de "divisão" ou "junção". Divisão é o processo de separar dois aspectos de uma experiência, que estejam juntos. Por exemplo, no processo de fobia, os sentimentos desagradáveis são separados da memória visual da experiência traumática. No processo do perdão, certas idéias ou significados que a pessoa tem sobre o perdão (por exemplo o perdão destina-se a outra pessoa, ou perdoar significa desculpar o ato prejudicial) precisam ser separados da experiência do perdão antes que a pessoa esteja disposta a perdoar.

 Unir é o processo de juntar dois elementos que foram separados, na experiência da pessoa. Em qualquer processo de integração de âncoras, como a "mudança da história pessoal", duas experiências diferentes são unidas no mesmo momento do tempo.

 Naturalmente, em muitas intervenções, a divisão e a junção ocorrem simultaneamente. Na ressignificação de conteúdos, um significado antigo é separado da experiência ao mesmo tempo em que uma nova significação lhe é atribuída:

 Todas as nossas experiências têm uma estrutura complexa, formada por camadas sobrepostas de semelhanças (união) e diferenças (divisão) percebidas. Ao mudar uma experiência, estamos sempre mudando a percepção ou a compreensão da semelhança ou diferença, e isso vai resultar numa mudança de resposta.

 Se você acha que lhe seria útil aprender como pensar nesses termos universais, será de grande auxílio pegar um exemplo de qualquer método de PNL que você conheça e examiná-lo cuidadosamente para determinar , em cada passo, o que está sendo dividido e o que está sendo unido. Quanto mais você o fizer, tanto mais isso se tornará uma maneira automática de pensar, que pode orientar o seu trabalho.

 Seqüência

 Outra forma abrangente de compreensão é que toda nossa experiência é uma seqüência interminável de pequenos eventos, um conduzindo ao outro numa sucessão rápida. Na verdade, não temos "experiências" ou "problemas" ou "soluções", o que temos é um estado de experiência, problemas ou soluções. Quando alguém diz que tem um "problema" de "relacionamento", está isolando um pequeno evento dentro de uma seqüência, e pensando nele como se fosse uma "coisa" fixa. Quando respondo que compreendo haver algum aspecto do qual ele não gosta em sua relação com essa pessoa, minhas palavras são um convite para começar a pensar nisso como um processo em mudança, mais do que em algo fixo ou imutável.

 Quando alguém pensa num "problema", geralmente o representa como uma imagem imóvel. Pedir-lhe, simplesmente, que essa imagem se transforme em um filme do evento pode representar uma intervenção profunda, porque isso vai recuperar a seqüência completa da qual o problema é apenas uma pequena parte. O filme dará muito mais informações do que a imagem parada e, freqüentemente, essas informações são muito úteis para se chegar a uma solução. E, uma vez que a imagem do filme já está em movimento e mudando, é muito mais fácil introduzir mudanças adicionais úteis do que se fosse uma imagem fixa.

 Combinando-se a idéia de fazer uma união com a seqüência, nós percebemos que dois eventos podem ser unidos simultaneamente, ou seqüencialmente, um após o outro. Então, quando queremos mudar a experiência problemática de alguém para algo com mais recursos e mais útil, temos três escolhas fundamentais a respeito da combinação do "estado do problema" e do "estado de recursos"... Nós podemos combiná-los simultaneamente em algum momento do tempo, ou podemos dar recursos seqüencialmente, imediatamente antes ou imediatamente depois que o problema ocorre.

 Cada escolha terá um resultado um pouco diferente, que é difícil descrever em palavras, mas pode ser facilmente experimentado. No método básico conhecido como "mudança da história pessoal", nós ancoramos um estado de problema e um estado de recurso. Dependendo de nosso tempo e do gatilho das âncoras, nós podemos combinar os estados simultaneamente, criando um estado de integração, ou podemos criar uma seqüência na qual o estado de recurso preceda ou siga o estado de problema.

 Se o recurso for dado posteriormente ao estado de problema, a pessoa tem que experimentar primeiro o desconforto do estado de problema, e depois a solução possibilitada pelo estado de recurso. Embora isso funcione, não é muito elegante, e deixa a pessoa experimentando repetidamente um breve desconforto.

 No entanto, se o estado de recurso preceder a situação difícil, a pessoa nem sequer vai experimentá-la como um problema. Na verdade, isto é o que a maioria de nós experimenta milhares de vezes por dia, sem mesmo notá-lo. Todos os dias nós enfrentamos uma miríade de tarefas, desde procurar as chaves do carro na bolsa até falar com alguém ao telefone, ou ler um artigo como este. À medida que tivermos recursos comportamentais robustos para lidar com essas situações, não as consideraremos como problemas. Mas se fôssemos ainda criancinhas, muitas dessas tarefas representariam problemas insuperáveis. A construção de recursos disponíveis antes que ocorra um problema potencial é muito mais criativa e agradável do que o uso dos recursos disponíveis para remediar as coisas depois que o problema ocorre e, é claro, essa é a razão porque planejamos com antecedência e temos instituições educacionais, etc., para nos prepararem para os desafios da vida.

Qualificadores Cognitivos

 Alegremente, John McWhirter descreveu um exemplo lingüístico fascinante e sutil de como a mente pode ser ajustada previamente para responder de uma maneira particular que, tristemente, outros não notaram antes. Um "qualificador cognitivo" é um advérbio de "comentário" que aparece no início de uma sentença ou frase referente a um estado cognitivo ou emocional, como "alegremente" ou "tristemente" na sentença anterior. O qualificador cognitivo prepara a mente para responder de uma maneira específica a qualquer palavra que apareça depois dele.

 A fim de experimentar esse efeito, pense numa sentença descritiva ordinária como: "A árvore verde está sendo iluminada pela luz do sol" ou "Eu estou sentada diante da escrivaninha" e imagine-se dizendo essa sentença para si próprio...

 Agora, imagine-se dizendo exatamente a mesma sentença, mas precedida pela palavra "tristemente", e note como isso muda sua experiência...

 Depois diga a mesma sentença, mas precedida pela palavra "alegremente" e, novamente, preste atenção à sua experiência...

 Os qualificadores cognitivos dirigem nossa mente para pensar nos aspectos da experiência especificados pelo tipo de qualificador usado.

 Imagine como seria sua esposa se você iniciasse cada sentença, e cada pensamento, com a palavra "infelizmente" ou "lamentavelmente." Essa é uma maneira muito eficaz para entrar em depressão, e algumas pessoas realmente fazem isso! Ao contrário, imagine como seria sua esposa se cada sentença ou frase fosse precedida por "felizmente" ou "afortunadamente."

 É compreensível que possamos nos sentir incongruentes sobre o uso do qualificador "alegremente" em alguns eventos desagradáveis, mas felizmente existe um recurso alternativo. Tanto "tristemente" como "alegremente" se referem a estados emocionais, e a maioria das emoções são avaliadoras, lidam com o agradável e o desagradável, o positivo ou o negativo. Esses qualificadores de avaliação às vezes parecerão inadequados para o conteúdo de um determinado pensamento ou sentença.

 Existe um conjunto de estados cognitivos/emocionais bastante diferentes, e que não apresentam aspectos negativos ou desagradáveis.

 Curiosamente, todos eles se situam ao redor de um estado de interesse, curiosidade, atenção ou compreensão: "interessantemente", "curiosamente", "surpreendentemente", "compreensivelmente", etc. Algo desagradável pode ser tão interessante quanto algo agradável – o estado de interesse ou fascinação, em si mesmo, é sempre positivo e agradável. Você provavelmente nunca ouviu ninguém queixar-se por ser curioso. "Ah, eu tive uma grande curiosidade ontem – foi horrível!"

 Uma vez que esses qualificadores cognitivos milagrosamente nunca têm estados negativos a eles associados, eles realmente são recursos universais, que podem ser usados com qualquer experiência. E, uma vez que um estado de curiosidade ou interesse é um excelente estado de recursos para o aprendizado e a mudança, essa espécie de qualificador cognitivo é um estado maravilhoso a ser usado no início, para que se possa compreender e processar uma dificuldade.

 Por exemplo, pense em alguma experiência em sua vida que você descreveria como um problema ou dificuldade, e forme uma sentença simples para descrevê-la, como: "Eu odeio quando as pessoas não cumprem suas promessas." Diga essa sentença para si próprio, e note como você a representa internamente...

 Agora, diga a mesma sentença para si próprio, mas precedida da palavra "Interessantemente", ou "Curiosamente", ou "Compreensivelmente", e preste atenção a como essa palavra muda sua experiência...

 A maioria das pessoas experimenta mudanças sutis e profundas, porque a atenção é retirada de quão desagradável é o problema, e dirigida para o interesse e curiosidade sobre como ele acontece, ou como pode ser compreendido – um estado de prontidão e ânsia de aprender. Imagine como seria sua vida se todas as frases e pensamentos começassem com "Interessantemente" ou "Compreensivelmente".

 Isso pode ser muito interessante quando usado como um "retrocesso" com o cliente. Quando um cliente descreve um problema, você pode retornar sua afirmação, começando com "compreensivelmente", ou outro qualificador que tenha a ver com curiosidade e aprendizado, e observe as mudanças não verbais que indicam que ele está pensando sobre o assunto de uma maneira mais tranqüila e útil.

 Um aspecto muito importante dos qualificadores cognitivos é que eles criam um mundo universal e partilhado, um significado que abrange a nós dois. É muito diferente de dizer "Eu acho isso interessante", ou "Você acha isso interessante?", casos em que há uma separação ou diferença aparente entre nós. Quando eu digo "interessantemente", essa expressão estabelece um significado que simplesmente existe e é tido como normal, e que nós dois experimentamos juntos, sem a separação entre eu e o outro que muitas pessoas muitas vezes sentem. Isso transcende o rapport, porque o rapport pressupões a diferença que ele interliga.

 Surpreendentemente, por meio de um poderoso estado de interesse e curiosidade, muitos "problemas" simplesmente se esvaem à medida que a atenção se desvia de quão desagradável são esses problemas para simplesmente aprender de que maneira eles existem e funcionam, e o que podemos fazer para mudá-los. Mesmo quando eles não desaparecem, é um ponto muito mais útil por onde começar a trabalhar em direção à compreensão e à solução. Interessantemente, a idéia de que tudo na vida é uma escola na qual temos lições a aprender é muito antiga e particularmente centrada em tradições espirituais. Não sei se isso é verdade ou não, mas é uma reorientação muito poderosa para nossa vida como um todo, que a torna muito mais fácil e agradável, tanto para nós mesmos como para os outros.

Steve Andreas, com sua esposa Connirae, tem estudado, ensinado e desenvolvido a PNL – Programação Neurolingüística por mais de vinte anos. Eles são autores ou editores de diversos livros e artigos de PNL.
Endereço: www.steveandreas.com

Artigo enviado por Steve Andreas para o Golfinho por especial gentileza da SBPNL - Sociedade Brasileira de Programação Neurolingüística.

 Publicado no Golfinho nº 57 outubro/1999
Trad. Hélia Cadore

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